Aline Lacerda
Ela voltou a sentir as dores que nunca deixaram de doer e que agora doíam mais. Não conseguia distinguir se eram dores nos músculos ou na alma. Sequer sabia se alma doía. Se alma existia. Sabia que as dores, sim, existiam e doíam.
Acordou naquela segunda-feira pós ‘feriadão’ muito solitária. E pesada. Sentia todo o peso do mundo em seus ombros e sabia que era só o seu mundo. Muito insignificante comparado ao todo. E sentia-se só nesse todo, mas não queria outra coisa a não ser a solidão. Queria aquele momento pra chamar de seu.
Quando o telefone tocou e escutou do outro lado da linha a famosa pergunta “tudo bem?”, desligou. Não queria responder a verdade, pois não queria multiplicar sua dor. Não queria ser hipócrita como sempre foi e como todos são quando comumente respondem “tudo bem, e você?”. Ela não poderia, não nesta segunda-feira, não no seu momento, suportar o nível superficial de uma conversa rotineira. Muito menos explicar o que ela não entendia sobre si mesma.
Sufocada pelo sono restante de uma noite mal dormida. Engasgada com o desaforo de quem fingiu ajuda. Atormentada pelo medo da vida e da morte de alguém que muito ama. Atropelada pela cena que sangrava orgulho da qual presenciou. Saudosa de um passado inventado. Confusa com o rumo que as coisas estão tomando. Inundada de afazeres chatos e obrigatórios. Afogada pelas expectativas ignorantes em relação a si mesma e aos outros. Ela sente que perdeu o controle.
“O que fazer agora?”
São muitas as perguntas. São vazias as respostas. São muitos os caminhos. São todos escuros.
Ela ainda tem medo de escuro. Mas ela sabe que os fantasmas que a atormentam não estão no escuro. Sabe que eles estão nela. E sabe que os fantasmas dos outros, são dos outros. E eles é que têm de enfrentá-los.
E se convenceu que os outros também não podem dar o que ela espera. Não podem mais segurar suas mãos. Não podem mais abrir os caminhos que ela deseja seguir simplesmente porque estes caminhos são seus. E só assim serão seus.
Mas ela ainda não conseguiu se livrar do frio na espinha que paralisa. Ainda não deu o primeiro passo. Ainda não conseguiu controlar a respiração. Ainda sente que o ar pode lhe faltar a qualquer momento.
Ainda não conseguiu. Ainda não agiu.
Ainda.